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  • Elias Torralbo

O que é Teologia?



Há não muito tempo atrás a Teologia era vista com desconfiança por alguns, chegando ao extremo de ser demonizada por muitos. É verdade que este quadro tem sofrido significativas mudanças, mas ainda é comum encontrarmos cristãos que dizem: “Eu amo a Palavra de Deus, mas odeio Teologia”. Esta é uma declaração que representa um grande contra senso, afinal, a base de toda a Teologia é a Bíblia; esta afirmação seria o mesmo que dizer que você ama flores e odeia a botânica.


Esta e outras atitudes em relação à Teologia em partes têm sua raiz na teologia insípida, descomprometida com o verdadeiro sentido do Evangelho, além de outros fatores. Contudo, a solução para isso não é opor-se ou rejeitar radicalmente o estudo teológico, antes devemos usá-la de maneira responsável e principalmente submissa a Deus.


O primeiro e principal passo em direção ao uso correto da Teologia é o conhecimento de seu verdadeiro propósito, e conforme veremos, ela tem como fim maior o conhecimento sobre Deus, tratando-se da mais alta tarefa que alguém pode envolver-se. Em relação ao ser humano como um todo, este conhecimento sobre Deus produz um verdadeiro senso de humildade, que leva o homem a reconhecer suas imperfeições e limitações, dando a ele a noção de dependência de Deus; quanto à vida interna da igreja, este conhecimento gera edificação, levando-a a estar apta para cumprir sua missão com fidelidade, o que também glorificará a Deus.


Reconheço que, graças a uma ação divina e também às expectativas de um público cada vez mais exigente, como resultado das mudanças sociais, culturais e intelectuais, esse quadro tem mudado, e o interesse pela Teologia tem aumentado significativamente. Por um lado trata-se de uma grande e animadora notícia, mas por outro lado, esta notícia traz consigo um grande desafio, em especial pelas muitas propostas teológicas, que nem sempre são as melhores opções.


Com base nisso, é preciso dispensarmos uma atenção especial a esta ciência tão ampla e essencial, tendo como objetivos a eliminação dos excessos e o acréscimo do que falta, para que assim ela possa cumprir o seu verdadeiro propósito de honrar a Deus e edificar a igreja.


Uma definição necessária


Wolfhart Pannenberg afirma: “A palavra “teologia” tem múltiplos significados” (PANNENBERG, 2009, p. 25). Ampliando esta complexidade e extensão do termo, Barth diz:


O termo “teologia” parece indicar que ela, por ser uma ciência particular (e muito particular!) visaria perceber, compreender e tematizar a “Deus”. Ao termo “Deus”, porém, podem ser atribuídos os mais variados sentidos. Assim, também há muitas teologias diferentes. (BARTH, 2012, p. 9)

Poderíamos acrescentar outras referências e avaliações sobre a extensão e a complexidade do termo “Teologia”, contudo, considero importante para nossos objetivos considerar o sentido em si da palavra. Aprecio a definição que William E. Hordern faz sobre Teologia:


“Teologia” é a palavra que procede do grego: Theos, que significa, Deus, e logos, que significa tratado ou pensamento lógico. Daí se depreende que Teologia é tratado ou desenvolvimento bem ordenado do pensamento que se possa obter a respeito de Deus. (HORDERN, 2003, p. 12)

Em uma análise mais prática, Teologia é o estudo, tratado ou a ciência que se propõe a estudar sobre Deus. Entretanto, uma vez que o termo Teologia é técnico e científico, como definir a expressão “Deus”?


Deixo a resposta por conta de Horden, que afirma:


A palavra Deus não pode ser definida de forma exaustiva, mas é normalmente empregada para representar o que quer que se creia como sendo o fato Último, a Fonte da qual tudo o mais teria provindo, o Valor supremo ou a origem de todos os valores da existência. Deus vem a ser o ente admitido como sendo digno de constituir-se no alvo e no propósito da vida. À luz de tais considerações, torna-se evidente que ninguém poderá passar sua existência sem a adoção de alguma forma de teologia. (ibd. p. 12)

Considerando o fato que, em certo nível, a Teologia está na vida de todas as pessoas – mesmo de forma imperceptível -, podemos afirmar que seu lugar é onde a vida acontece.


Dois grandes fundamentos da Teologia


Analisemos agora duas grandes verdades que fundamentam o estudo teológico e que, sem considera-las, a boa Teologia com certeza sofrerá terríveis danos.


A Teologia não tem sua origem em si mesmo, e muito menos no homem, por mais que este possa desejar ou mesmo se esforçar em conhecer mais sobre Deus por meio da própria Teologia. Com base nisso, é preciso destacar a origem, a base e o alvo da Teologia, e somente assim encontraremos seus verdadeiros e firmes fundamentos.


Para isso formularemos duas perguntas centrais: 1) De quem é o primeiro passo?; 2) Quem vem primeiro no estudo teológico?


Em primeiro lugar, fazer Teologia só é possível porque Deus se revelou, permitindo ser conhecido dos homens. Firmado nesta certeza é que Wolfhart Pannenberg afirma, ao escrever:


Antes, a viabilização de conhecimento de Deus pelo próprio Deus, portanto por meio de revelação, já é uma das condições fundamentais do conceito de teologia como tal. (PANNENBERG, 2009, p. 26)

A Teologia tem sua origem no próprio Deus, primeiro porque ele é o seu objeto de estudo, e depois porque ela só é possível porque Ele se deu a ser conhecido. Usamos mais uma vez as palavras de Pannenberg:


Em todo caso, porém, não se pode imaginar um conhecimento de Deus e uma teologia, tanto fora quanto dentro da Igreja cristã, também no chamado conhecimento natural de Deus, que não partisse do próprio Deus e que não se devesse à ação do seu Espírito. (ibd. p. 27)

Portanto, à primeira pergunta se responde: o primeiro passo é de Deus que voluntariamente decidiu revelar-se ao homem, colocando a Teologia como plano secundário nesse processo, e ela deve permanecer em seu lugar, cumprindo assim o seu real papel.


Além da verdade da revelação de Deus como base da Teologia, a Palavra de Deus também serve não só como balizador, mas principalmente como fundamento para ideais teológicos, caso contrário, os resultados serão danosos e letais.


Exaltando o valor da Palavra e a necessidade de uma busca contínua pelo conhecimento da mesma, Chafer afirma:


Quando se adquire um conhecimento do conteúdo espiritual da Bíblia, torna-se uma tarefa que dura a vida inteira. Os grandes pregadores que moveram os corações dos homens com o poder divino eram impregnados das verdades da Escritura conseguidas por meio de um estudo imediato e diário de seu texto. Os fatos gerais do conhecimento humano podem ser adquiridos por meios comuns, mas as verdades espirituais são apreendidas somente pelo ensino do Espírito Santo o coração dos indivíduos. (CHAFER, 2003, p. 6)

É imprescindível que o estudo da Teologia seja feito com base na Palavra e dependência do Espírito Santo. A Bíblia é a revelação de Deus ao homem, por meio dela Ele é apresentado como Criador e Senhor de tudo; a Bíblia é também o registro do que Deus fez, faz e ainda fará, e se Teologia é a busca de conhecê-lo, então o caminho é a Sua Palavra.


Sobre a importância da Escritura na Teologia, leiamos o que Karl Barth tem a nos dizer:


A palavra que não só regula a teologia e por essa não precisa ser primeiramente interpretada, mas que a fundamenta e constitui, que a partir do nada chama à existência, que da morte a chama à vida – essa palavra é a palavra de Deus. O lugar no qual a teologia se acha colocada e ao qual precisa voltar dia após dia se acham bem defronte a essa palavra. (BARTH, 2012, p. 19)

Com isso, podemos responder à segunda pergunta dizendo que antes do estudante de Teologia ou do teólogo vem as Escrituras. Esta é uma verdade tão central que ela define a ordem de valor dos envolvidos no processo teológico, isto é, a Palavra de Deus deve exercer autoridade sobre o estudante de teologia e nunca o contrário.


Conclusão


Tratando-se originalmente de uma ciência que se propõe a estudar a respeito de Deus, a Teologia quando bem aplicada em sua forma e propósito, ela nunca produzirá falsos crentes ou mesmo pessoas soberbas, pelo contrário, quando utilizada em seu real sentido, a Teologia levará pessoas a reconhecerem a grandeza de Deus, suas próprias fraquezas e limitações, levando-as a dependerem deste Deus, tornando-se quebrantadas e submissas a Ele.


Além disso, nuca devemos nos esquecer que a Teologia tem seu início, sua base e seu propósito no próprio Deus, e deve caminhar na direção da glorificação do Senhor e da edificação da igreja. Isso quer dizer que a Teologia nunca pode enxergar-se como um fim em si mesma, antes ela deve caminhar em duas direções: para cima (Deus) e para fora (a igreja e a sociedade).

Encerro este artigo com as palavras de Paul Tillich na abertura da introdução de sua Teologia Sistemática, que afirmou:


A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades da igreja. Um sistema teológico deve satisfazer suas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração. A teologia se move para trás e para diante entre dois polos: a verdade eterna de seu fundamento e a situação temporal na qual a verdade eterna deve ser recebida. (TILLICH, 1967, p. 13)

Pr. Elias Torralbo


Bibliografia:


Pannenberg, W. Teologia Sistemática, volume 1 (Santo André: Paulus, 2009)

Barth, K. Introdução à Teologia Evangélica (São Leopoldo: Sinodal, 2012)

Hordern, W. E. Teologia Contemporânea (São Paulo: Hagnos, 2003)

Chafer, L. S. Teologia Sistemática, volume 1 e 2 (São Paulo: Hagnos, 2003)

Tillich, P. Teologia Sistemática (São Leopoldo: Sinodal, 1967)

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