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  • Elias Torralbo

SERVIÇO CRISTÃO NO MINISTÉRIO

Por uma Mentalidade Transformada


Serviço é um tema essencial em toda a Bíblia Sagrada, de forma indireta no Antigo Testamento e direta no Novo Testamento, o que chamamos de “serviço cristão”. Trata-se de um assunto amplo e profundo, que abre diversas áreas que podem ser analisadas, das quais podemos extrair importantes lições.

Uma reflexão em torno do serviço cristão deve passar primeiro pela necessidade de uma reavaliação da mentalidade predominante de nossos dias, afinal, de nada adiantará falar sobre faces do serviço se não houver uma transformação radical acerca disso. Portanto, nos dedicaremos a uma análise sobre a necessidade de identificarmos a mentalidade predominante dos dias atuais, a urgente necessidade de transformá-la, a fim de que alcancemos aquilo que se espera de um verdadeiro ministério cristão: “o serviço”.

MUDANÇA DE MENTALIDADE

Sob a inspiração do Espírito Santo, o apóstolo Paulo convocou a Igreja que estava em Roma para uma renovação de sua mente, ao escrever: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Rm 12.2)

Este que tem sido tratado como um texto clássico da Bíblia podemos identificar – dentre outras muitas lições - um claro contraste entre o que é inaceitável com aquilo que deve ser mudado, isto é, Paulo ensina-nos que há coisas que não podem ser alteradas sob nenhuma circunstância, enquanto outras devem sofrer mudanças. Este contraste impõe-nos a responsabilidade de encontramos um caminho que nos conduza ao tão desejado equilíbrio entre as partes envolvidas deste processo, e que precisa ser encarado como um desafio a ser vencido.

Antes de avançarmos precisamos dar um destaque especial ao fato de que Paulo indica que a única forma pela qual o cristão possui para não ser levado a uma postura de conformismo com este mundo, é pela constante transformação da mente, que implica em ininterruptos movimentos em direção a um crescimento e amadurecimento espirituais. Portanto, não se submeter à mentalidade deste mundo e experimentar constante transformação da mente é o caminho em direção a uma vida cristã com as verdadeiras características de um discípulo de Cristo.

Identificando o Problema e Estabelecendo o Equilíbrio

A cura de uma determinada enfermidade só é possível quando devidamente diagnosticada, assim como pela identificação de suas causas. Esse princípio se aplica também na busca pela mudança de mentalidade, que só ocorrerá quando devidamente identificada e reconhecida como necessária.

Evidentemente que a identificação daquilo que precisa ser mudado depende de pelo menos duas atitudes básicas: sensibilidade e coragem. A sensibilidade se faz necessária em dois aspectos: 1) identificar o que está sobrando para que seja eliminado; 2) e identificar o que está faltando para que seja acrescentado. Quanto à coragem trata-se de uma espécie de resultado da sensibilidade, já é necessária para que o que foi identificado seja executado, isto é, os excessos sejam eliminados e aquilo que está faltando seja providenciado e devidamente acrescentado.

François Fénelon mostra que este equilíbrio só é possível por meio de uma vida entregue inteiramente a Deus, conforme lemos:

Na quietude e no silêncio, escute e procure discernir o que Deus lhe pede, e depois faça apenas isso. Você verá que tudo que é excessivo irá se retrair e tudo que é insuficiente lhe ensinará o meio-termo correto. (HOUSTON; 2010, p. 48)

De acordo com as palavras de Fénelon, nosso silêncio e a ação divina são os meios pelos quais o excesso em nós seja eliminado, e possamos assim alcançar o equilíbrio necessário. Portanto, descansemos em Deus e esperemos que Ele nos diga o que devemos excluir e o que devemos acrescentar em nós para que nossa mentalidade real e radicalmente transformada.

Definição dos Termos

Nessa seção daremos um destaque ao significado de dois termos elementares e as implicações de dois termos fundamentais de nossa reflexão, sendo eles: 1) mudança; 2) mentalidade.

Dentro do contexto de nossa análise, a expressão “mudança” tem íntima relação com “transformar”, que segundo o Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa significa: “dar nova forma; metamorfosear; transfigurar; converter; mudar; alterar; modificar; variar...”. O mesmo Dicionário nos auxilia quanto ao significado da palavra “mentalidade”, da seguinte forma: “a mente; movimento intelectual; estado psicológico”.

Diante destes respectivos significados, por “mudança de mentalidade” entendemos ser a transformação de convicções intelectuais, ou ainda, uma reavaliação e redirecionamento de conceitos muito bem e previamente estabelecidos. Portanto, fica evidente que mudança de mentalidade requer disposição para enfrentar os desafios e as oposições inerentes a este processo, e dependência do Espírito Santo é vital a isso, pois, caso contrário, nada mudará.

Serviço, o espírito do cristianismo

O princípio norteador do cristianismo é o “serviço”, que essencialmente visa beneficiar o outro em detrimento de seus próprios interesses. Como maior e principal modelo a ser seguido, Jesus Cristo afirmou: “... e quem dentre vós quiser ser o primeiro, seja vosso escravo, tal como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mateus 20.27-28)

Acerca deste texto, Charles Spurgeon comentou:

Certamente, aquele que é o maior e principal entre nós deu-nos o exemplo do máximo labor de amor. Nenhum servo deixou de ser servido por Ele... Jesus não recebeu nada dos outros; a sua vida foi uma doação, e a doação da vida. Para esse propósito, Ele é o Filho do homem; com esse desígnio, Ele veio para essa finalidade, Ele deu a sua vida em resgate de muitos.

Nenhum serviço é maior do que o resgate dos pecadores pela sua própria morte; nenhum ministério é mais humilde do que morrer no lugar dos pecadores. (SPURGEON, 2018, p. 423)

A explicação feita pelo “príncipe dos pregadores” mostra-nos que o serviço é a principal evidência do amor, que segundo a Bíblia é maior evidência do verdadeiro cristianismo (I Co 13.13). Spurgeon explica ainda que os efeitos do que Cristo realizou são tão eficazes que, de alguma forma, tem afetado a todas as pessoas, e encerra reafirmando que entregar-se em favor do outro é a principal característica de um ministério verdadeiramente cristão.

A perspectiva teológica do Novo Testamento sobre ministério segue na mesma esteira do serviço, aliás, as exigências impostas a quem é chamado para exercer algum ofício ministerial, são basicamente as mesmas endereçadas a todos os discípulos de Cristo. Sobre isso, leiamos o que John MacArthur escreve:

As qualificações para presbíteros e líderes da igreja não são somente para eles. Essas qualidades são designadas especialmente para eles porque estabelecem os padrões para todos. “Como é o povo, assim é o sacerdote” (Os 4.9). O que o pastor e os presbíteros devem ser é o modelo para todos os cristãos. E os princípios que são verdades para líderes na igreja também são princípios bons para todos os cristãos aplicarem em qualquer posição de liderança. (MACARTHUR, 2009, p. 139)

O apóstolo Paulo desenvolve isso com muita clareza, sinalizando que os princípios de vida cristã servem não somente para os cristãos em geral, mas também aos que exercem ministério, especificamente, exceto no que tange aos presbíteros que, além de todas as demais exigências, não podem ser neófitos e devem ser aptos a ensinar (I Tm 3.1-7; Ef 5.18; Hb 13.2).

Portanto, o que rege a sinfonia da vida cristã e do exercício ministerial é a mesma batuta e sobre o mesmo ritmo, devendo ser harmônicos. Do mesmo modo, o serviço cristão deve nortear não somente a vida cristã, mas também o exercício de um determinado ministério, que deve – dentre outras coisas – conhecer sua fonte (de quem recebeu), seu fundamento (sobre quem está firmado) e sua direção (para onde deve olhar e caminhar).

Olhando na direção certa

Ninguém em sã consciência caminharia em uma direção diferente daquela para a qual se olha, porque isso acarretaria em acidente. Do mesmo modo, o exercício ministerial exige um olhar firme e permanente para a direção certa, porque dentre outras coisas, isso contribuirá pelo menos em dois aspectos: 1) evita o envolvimento com atividades desnecessárias; 2) evita desperdício de tempo e energia, pois contribui para a identificação e o empenho no trabalho correto, em termos de motivação, métodos e propósitos.

De acordo com a Bíblia, Deus sempre trabalhou no sentido de beneficiar o outro. Por exemplo, tanto na criação como na redenção, fomos beneficiados, e em ambos os casos a obra é exclusivamente de Deus.

Além disso, tudo o que a Bíblia registra possui o princípio do servir, seja de forma direta ou indireta. Este princípio aparece de maneira bem explícita no momento em que Deus chamou Abraão, por meio de quem Deus visou alcançar todas as famílias da terra, conforme lemos em Gênesis12.1-3:

Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Bíblia, 2019, p. 10)

Abraão não foi chamado para ser o alvo da bênção de Deus, mas o canal por meio da qual ela chegaria ao fim estabelecido pelo Senhor: “todas as famílias da terra”. O próprio Senhor Jesus seguiu este mesmo conceito, conforme lemos em Lucas 4.17-19:

E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, acho ou lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor. (ibid., 2019, p. 692)

Nessa referência que Jesus faz à profecia de Isaías 61, dizendo se cumprir nele (Lc 4.21), não é dito que o Espírito do Senhor foi dado a Jesus, mas que estava sobre Ele para levá-lo a cumprir Seu ministério, que ocorre sempre no sentido de beneficiar outras pessoas e não a si mesmo. Sendo assim, podemos afirmar que a própria vida encontra-se firmada no princípio da necessidade do respeito e do serviço ao próximo, conceito muito bem desenvolvido por Paul Ricoeur:

Ser “alguém” ou “o outro” sugere que a existência de alguém pressupõe a existência de um outro; que não é possível se pensar em um indivíduo sem que se pense em outro. (HOUSTON, 2010, p. 20)

Percebe-se que o cumprimento desse princípio da vida representa duas grandes verdades: 1) responsabilidade; 2) meio pelo qual se pode obter realização pessoal. Stan Toler nos aconselha:

Não permita que a atitude “e quanto a mim?” invada o seu pensamento. Considere-se um doador, alguém que acrescenta valor aos outros. Procure contribuir mais do que receber. Não custa muito acrescentar alegria à vida de alguém. (TOLER, 2012, p. 14)

Esta nobre atitude deve permear todas as áreas da vida de um verdadeiro cristão, mui especialmente na tarefa do ministério, afinal de contas, o posto mais elevado que alguém pode alcançar nessa vida é a de servo, verdade que se confirma nas seguintes palavras do apóstolo Paulo em Filipenses 2. 3-7:

Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz. (BÍBLIA, 2019, p. 800)

Jesus só pôde cumprir Sua missão fazendo-se homem, mas para isso precisou primeiro tornar-se servo, e aqui podemos extrair pelo menos duas grandes lições: 1) só há uma posição abaixo de Deus, que não é ser homem, e sim servo; 2) a dolorosa, porém honrosa e eterna obra da salvação só pôde ter sido cumprida pelo serviço de alguém, a saber, Jesus Cristo. Portanto, ser servo não é minimizar nossa importância, mas viver de maneira honrada aos olhos de Deus, além de ser o único caminho pelo qual é possível cumprir a missão que recebemos de Deus, seja coletiva ou individualmente.

Que Deus transforme nossa mentalidade de forma constante e eficaz, para “que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co 4.1).

Bibliografia

Bíblia Sagrada, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2019

HOUSTON, J. M., O Discípulo; Brasília: Editora Palavra, 2010

SPURGEON, Charles H., Comentário de Mateus; São Paulo: Hagnos, 2012

MACARTHUR, John, O Livro sobre Liderança; São Paulo: Cultura Cristã, 2009

Autor: Elias Rangel Torralbo

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